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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Azul Intenso

Já passava da meia noite quando comecei a escutar leves batidas na minha janela. Com um pouco de receio me levantei da cama e fui em direção ao barulho. Quando abri a janela pude ver Ethan no jardim da minha casa, procurando mais pedrinhas para chamar minha atenção.
O chamo, quase que sussurrando, para que meus pais não acordem. Ele sobe agilmente por uma árvore e entra então em meu quarto.
Ethan estava mais pálido que o normal, o que me preocupava, mas ainda sim continuava lindo. Só o seu sorriso me tirava o fôlego.
Passamos a noite juntos e antes que o sol despertasse ele se foi.
Os dias se passavam e eu quase não o via mais. Apenas a noite, quando aparecia na minha janela. Quando ligava para seu celular ele não respondia. Mas ele devia estar muito ocupado, não era a primeira vez que ficávamos sem nos encontrar.
Certa manhã acordo um pouco resfriada. Só sentia a exaustão e a dor por tudo. Havia dias que era difícil ir para a escola. Me sentia frágil, como se toda minha vitalidade se esvaísse do meu corpo.
Minha mãe me pediu para passar uns dias em casa, descansar. Talvez com isso eu voltasse a ficar bem logo.
Ethan ia me ver quase todas as noites. Ficava deitado ao meu lado segurando minha mão, quando não estava abraçado a mim sussurrando que tudo ficaria bem.
- Promete que vai cuidar de mim?
- Claro que eu prometo meu amor. Tudo vai ficar bem, você vai ver. – ele me dizia sorrindo.
- Volta pra me ver amanhã? Promete que nunca vai deixar de me amar, mesmo que eu fique cada vez pior? Promete que nunca vai deixar de vir me ver?
- Jenny, eu nunca vou deixar de te amar. Mas você sabe que uma hora ou outra terei que partir.
Era difícil de escutar. Difícil de aceitar.
Ele começou a me visitar cada vez menos. Já havia dois meses que estava de cama. Passava o dia inteiro recebendo médicos e todo cuidado que meus pais podiam dar. Mas era difícil de entender. Nada parecia real. Eu não conseguia acompanhar o que acontecia a minha volta.
Em uma noite fria de inverno Ethan veio me visitar. Ele estava muito pálido. Preocupei-me ao pensar que ele poderia também estar doente. Ele se sentou em minha cama, e ficou me olhando por alguns minutos.
- Eu sei que é difícil pra você aceitar Jenny. Sei que você não está nada bem. Adiei esse dia ao máximo, na esperança de que você pudesse ficar bem. Mas hoje percebo que você só vai melhorar quando eu for...
- Não! Não diga isso! Por que você está falando isso? Você prometeu que nunca ia me abandonar.
- E eu não vou te abandonar. Mas você precisa aceitar os fatos meu amor. Eu não posso mais ficar com você, não posso mais vir lhe visitar. Eu preciso ir. Mas você sabe que estarei pra sempre no seu coração.
- Não, isso não basta Ethan. Eu quero você aqui comigo. Como poderei viver sem você?
- Você vai conseguir. Eu acredito que vai. Tudo vai passar e você vai ficar bem, vai seguir adiante.
- Mas eu te amo!
- Eu também te amo meu amor, muito mais do que tudo. Muito mais do que a vida. Por isso não hesitei nem um segundo ao dar minha vida a você. Mas agora é hora de dizer adeus.
Ele limpou minhas lágrimas que agora começavam a cair pelo meu rosto. Me beijou carinhosamente e se foi.
Corri até a janela para tentar impedi-lo, mas já era tarde. Sua luz era intensa, e iluminava tudo ao seu redor. Logo ele se foi, pra sempre. Já não conseguia mais enxergar sua linda alma azul, que antes brilhava no céu. Mas ainda sentia seu amor em mim, e em mim ele viveria para sempre.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Adeus

- Você está terminando comigo?

Suas palavras fazem meu coração sangrar. Não, é isso que eu quero dizer. Não estou terminando com você. Eu te amo mais que tudo.

- Sim. É isso mesmo. Eu estou terminando com você.

- Mas porque? O que houve? Estava tudo tão bem entre nós...

Sim, estava tudo bem mesmo. Mas não está tudo bem comigo e eu não quero que isso venha a machucar você também. Eu não quero te fazer infeliz.

- Porque eu não te amo mais.

Seus olhos se encheram de lágrimas e eu queria evitá-las. Queria abraçá-lo e dizer que era tudo uma grande besteira. Eu o amava sim e era pra sempre.

Já não tinha mais o que falar, minhas ultimas palavras o atingiram fundo.

- Mas... Você está amando outra pessoa, é isso? Eu fiz algo errado amor?

Ele agora estava se culpando. E isso só fazia doer mais em mim. Não meu amor, você não fez nada de errado. Ninguém fez nada de errado. Isso não tem nada a ver com nós. Isso tem a ver com a minha vida. Aquela que ainda não consegui deixar pra trás e que vai por muito tempo continuar ligada a mim.

- Você não fez nada. Eu só acho que não posso levar um relacionamento adiante sem amor.

Ele me olhou profundamente magoado. Seus olhos negros carregados de tristeza se fecharam por um breve momento adimitindo então o fim.

Ele então se virou e foi embora. 

Espero eu que ele venha a ser feliz. Muito feliz. Porque felicidade era uma coisa que eu não poderia dar, pois há muito eu já não tinha.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Vermelho

Da janela do meu quarto eu podia ver as primeiras luzes da cidade se acendendo. A luz do dia dava lugar ao escuro da noite. O frio do inverno estava cada vez mais intenso, e a neve cobria as ruas, deixando-as completamente brancas.
A casa onde moro fica em cima da colina. Lugar de pouco acesso, pois na região não se fala de outra coisa a não ser da colina assombrada. Diz-se que em noites de lua crescente espíritos malignos visitam a colina e acabam com a vida de quem estiver por ali.
Mudei-me a pouco mais de duas semanas. Sou uma pessoa um pouco cética e não costumo acreditar em coisas do tipo. Por isso não me assustei ao saber que era a única moradora, da única casa na colina. Muito menos quando soube que ela era assombrada.
A casa era antiga. Fora construída por volta de 1890 e sua decoração era bem rústica. Sentia-me bem em meu novo lar. Era a primeira vez que morava sozinha, e sentia-me orgulhosa por ter um bom emprego para me manter já aos 23 anos.
Nunca tive um namorado ou um relacionamento duradouro, mas esperava que agora que estava bem e morava em uma cidade pacata pudesse encontrar alguém e me apaixonar.
Subi as escadas e fui em direção ao meu quarto. Precisava dar uma reformada na casa, pois tudo rangia ali. Deitei-me na cama e adormeci.
Estava muito frio e meu corpo parecia estar ficando dormente. Já quase não sentia meus pés. Quando abri os olhos deparei-me com a janela aberta e a imensidão branca da neve engolia meu quarto.
Levantei-me e fechei a janela e fiquei pensando como ela foi abrir, já que ela estava trancada desde ontem quando começou a nevar. Virei para ir até o depósito, onde pegaria um pano para secar toda a neve que já derretia no chão do meu quarto. Foi quando percebi as pegadas...
As pegadas iam da janela em direção ao corredor principal. Tinham a forma de pés descalços, com um tamanho delicado, provavelmente 35 ou 36, devia ser uma mulher ou alguém pequeno, não tinha certeza. A única coisa que tinha certeza era de que não estava sozinha em casa.
Talvez alguém estivesse com muito frio, e entrou para se esquentar, pensei, tentando afastar idéias ruins da cabeça. Mas o único problema é que estávamos no segundo andar e não havia possibilidades de alguém escalar até minha janela.
Escutei um barulho quase ensurdecedor vindo do quarto ao lado que fez com que meu coração congelasse. Aos poucos percebi que os móveis estavam sendo arrastados. Mas pareciam ser arrastados com muita força. Coisa que uma pessoa pequena não conseguiria fazer.
Esforcei-me para conseguir movimentar meus pés e fazer com que minhas pernas andassem. O medo havia me paralizado. Lentamente consegui chegar até a porta e olhei no corredor para ver se encontrava alguém. Nada.
O barulho recomeçou. Dessa vez andei rapidamente até o outro cômodo e abri a porta com toda minha força, para assustar quem estivesse ali. Não havia ninguém.
Meu coração batia muito forte e rápido dentro do meu peito, e eu estava amedrontada como nunca na vida.  Senti algo quente no meu pescoço, e logo ouvi uma respiração.
Virei-me rapidamente, quando senti algo arrancar meu coração. A última coisa que vi foram aqueles horríveis olhos negros, de onde escorriam lágrimas vermelhas.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Doce Anjo

Todos os dias antes do sol nascer eu subia até no alto do morro que ficava perto da minha casa. Lá tinha uma arvore muito antiga e muito, muito grande. Era a única árvore que tinha lá em cima e podia ser vista de qualquer ponto em minha pequena cidade. Eu sentava aos pés da árvore e contemplava o nascer do sol. E assim acontecia todos os dias.
Naquele dia eu sentia meu coração doer. Já fazia algumas semanas que o sentia apertado.  Toda a noite sonhava com um rosto angelical. Mas ele nunca sorria. Estava sempre com os olhos carregados de lágrimas e uma expressão angustiante. E eu não entendia o porquê daquele lindo anjo estar sempre chorando. E então eu acordava quase sem ar.
Coloquei minhas botas e uma camiseta qualquer e comecei a subir em direção ao morro. Quando estava chegando perto da árvore comecei a escutar um choro baixinho e muito triste.
Havia uma garota, com aparência frágil em pé em cima de um banco. Ela estava com um vestido floral, descalça e com seus longos cabelos soltos. Ela olhava em direção ao sol que já estava nascendo e chorava.
Fui me aproximando devagar, para que minha presença não fosse notada. Estava preocupado e não queria assustá-la. Foi então que vi o que ela pretendia.
Acima de sua cabeça havia uma corda. Que ela segurava agora com força. Eu não estava tão perto dela e então comecei a correr. Ela colocou a corda no pescoço e jogou o banco para o chão. Antes de ele bater no chão pude ouvir um triste adeus.
Quando cheguei sem fôlego aos seus pés reconheci o seu rosto angelical. Ele estava sempre nos meus sonhos. Ela podia ter sido o amor da minha vida e eu a havia perdido.
Meus sonhos, minha angústia, a dor no meu peito agora faziam sentido. A dor só aumentava. E se ela morresse eu iria morrer com ela também. Meu coração clamava por isso
Não perdi tempo e a tirei dali. Deitei seu frágil corpo ao chão e verifiquei seu pulso. Fraco, mas ela ainda estava ali, ainda estava viva. Minha cidade era pequena, havia só um posto de saúde que ficava a 40 minutos dali de carro. Não havia tempo. Nunca havia estudado muito e não tinha muito conhecimento, mas sabia bem os primeiros socorros, e então fiz o máximo possível.
De repente ela puxou o ar com força, tossiu e abriu os olhos.
Ficamos um bom tempo nos olhando. Eu sentia que a conhecia, e sabia que ela também sentia o mesmo.
- Eu conheço você... – Ela disse com sua voz suave e fazendo uma cara de confusa.
- Sim, eu também a conheço.
- Nós já conversamos algum dia?
- Não. Mas todas as noites eu te encontrava em meus sonhos. E eles me trouxeram até você. Trouxeram-me pra te salvar.
As lágrimas caíram novamente de seus olhos. Mas não de tristeza e sim de emoção.
Eu a tomei em meus braços e pude sentir toda a sua fragilidade e delicadeza. Sua pele era macia e tinha um cheiro muito doce. Eu sabia que pertencíamos um ao outro. Estávamos ligados, conectados. E eu não podia perdê-la jamais.
- Aonde vamos?
- Eu vou cuidar de você. – Eu disse. Mas meu coração gritava: Eu vou amar você meu doce anjo.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Rainbow


A chuva cai. Gélida, trazendo até as pessoas as lembranças mais tristes. O dia está escuro. O frio consome tudo. Até meu coração esfriou. Parece que tudo vai morrendo aos poucos.
O vento bate nas folhas das arvores, que caem lentamente na frente da minha porta.
Deixo meu corpo sentir a chuva, e no mesmo instante passo a não ser mais eu. Algo toca minha alma, e leva pra longe os sentimentos bons. Perco-me em devaneios, e deixo minha mente me guiar a lugares sombrios. Algo toca minha face, fazendo com que tudo comece a regredir. As imagens passam rápidas em frente aos meus olhos.  Todas as recordações. Todas que me fazem chorar. Todas que me fazem querer gritar.
Escuto uma voz, uma voz que vem de muito longe. Uma voz doce, preciso alcançá-la. Mas minha mente faz com que eu me perca cada vez mais em meio a escuridão que me toma.
Meus lábios são tocados pelos seus. Desperto do escuro, o calor volta, e meu coração retoma a batida. No céu o arco-íris contrasta com o azul. Aqui, meu coração bate no ritmo do seu.

Dias Insanos

A janela aberta fazia com que os raios de sol invadissem o quarto, e nem os lençóis ou travesseiros eram capazes de fazer com que eu voltasse a dormir.
Levantei-me da cama me sentindo zonza. Paro em frente a porta e sinto uma tontura horrível. Minha visão fica completamente embaçada e tudo começa a ficar meio turvo, até que tudo escurece. Seguro-me nos móveis próximos a fim de me equilibrar, mas meu corpo parece não cooperar comigo. Meus braços e pernas começam a ficar dormentes. Entro em pânico. Não posso de repente ficar cega. Ou pior, será que estou morrendo? Mas em quarenta segundos tudo passa, minha visão começa a ficar normal e volto a sentir meu corpo. Ainda levo uns bons minutos pra recuperar completamente minha visão. Mas agora está tudo ok.
Arrasto-me até a cozinha e encho um copo com água. Isso é basicamente o que ando comendo, ou melhor, bebendo.
Não faço a menor idéia de que dia é hoje, ou há quantos dias não saio da minha cama. Não como mais nada, faz três dias que vivo a base de sopa e água. O que é consideravelmente melhor do que eu estava ingerindo antes.
O calendário marca dia 5 de fevereiro. Daqui a poucos dias volto a minha rotina. Trabalho, faculdade, reuniões e festas. E a única coisa que levo desse verão são dias que se passaram como borrões, ou seja, praticamente nada.
Fui a muitas festas. Conheci muitas pessoas. Beijei e me apaixonei. E então me arrependi.
Sentia-me a escória da humanidade. Um verdadeiro lixo. Aquela mulher decidida e atraente que eu era se foi dando lugar a uma chorona bêbada.
Meus dias se resumiram a beber, a fumar e a dormir desde então. Não consigo nem tomar banho, às vezes me atiro completamente molhada e cheia de sabão na cama e fico lá.
Meu travesseiro está sujo com a minha maquiagem. Foi nele que chorei nessas duas ultimas semanas. Meu lençol cheira a álcool e cigarro. E eu não quero nem me olhar no espelho. Não sei como fui chegar a este estado, mas agora que estou no fundo do poço não consigo mais voltar.
Busco meu celular e o coloco pra carregar. Tenho 107 ligações, 44 mensagens na caixa postal e 62 torpedos. Tudo dele.
Eu não fazia a menor idéia do que eu estava fazendo. Eu estava ali fugindo do amor. Eu o encontrei e sabia que era o amor da minha vida. E ao invés de abraçar esse amor eu o joguei pela janela.  Tudo por medo.
Ainda me lembro das suas palavras. Seu sorriso doce. Seu olhar carinhoso.
Ele disse que me amava como nunca havia amado alguém. E disse isso com sinceridade, do fundo do coração. E então eu corri. O pavor tomou conta de mim. Ouvi seus passos logo atrás de mim, sua voz me chamando, gritando. E eu perdi o controle de mim mesma.
Eu nunca fui amada, e me deparar com esse amor real e mútuo havia me assustado.
Abri a porta para pegar os jornais que deviam estar acumulados. Foi aí que eu o vi, sentado em um banco do outro lado da rua. Ele parecia exausto e começou a caminhar em minha direção.
- Por que você fugiu? – seus olhos estavam molhados e ele mostrava muita tristeza.
- Eu senti medo. Medo de que fosse da boca pra fora. Medo de que fosse uma piada. Medo de que fosse uma mentira para que eu me entregasse como já aconteceu e eu idiota acreditei.
- Eu. Te. Amo. Se fosse da boca pra fora eu não teria te esperado. Eu não estaria aqui. Então veja, eu estou aqui. Eu te amo garota. Por você eu faço qualquer coisa. Você é o motivo de eu estar aqui. O meu destino era te encontrar e te amar, e eu não vou deixar você ir.
As lágrimas caíram pesadamente pelo meu rosto e então ele me abraçou forte. Sentia meu corpo se esvaindo, enfraquecendo. E me deixei levar pelo seu amor. Ele me pegou em seus braços e me levou pra dentro. Eu soluçava em seu colo e ele carinhosamente mexia em meu cabelo.
- Eu vou cuidar de você.
Sim, era isso que eu queria. Amor, carinho, cuidado. Coisas que nunca tive em minha vida.
Fechei meus olhos e adormeci em seus braços. Minha mente estava serena e meu coração batia tranqüilo. Pois eu sabia que quando acordasse ele estaria ali, me protegendo.